Startup britânica busca reverter o derretimento do gelo marinho do Ártico com tecnologia inédita. Inovações enfrentam críticas, mas também mostram resultados promissores.
No Ártico canadense, um grupo de cientistas e empreendedores desbrava o gelo marinho com um plano ousado: bombear água do mar para congelá-la na superfície e absorver o gelo em uma tentativa de desacelerar ou derretimento acelerado da região. A startup britânica Real Ice , liderada por Andrea Ceccolini, está testando esta tecnologia inovadora em Cambridge Bay, uma pequena vila costeira em Nunavut, como parte de sua missão para restaurar o gelo marinho perdido.
Com o aquecimento global, o Ártico experimenta uma perda drástica de gelo marinho. Desde a década de 1980, a quantidade de gelo espesso e plurianual caiu 95%, resultando em uma crescente vulnerabilidade do ecossistema. O objetivo do Real Ice é restaurar 1,5 milhão de quilômetros quadrados de gelo, uma área maior do que a Califórnia, para ajudar a combater o aquecimento global. Este plano faz parte de um movimento maior de geoengenharia, que inclui soluções alternativas para salvar as regiões polares, como a instalação de gigantescas “cortinas” subaquáticas e a dispersão de partículas para refletir a luz solar.
A abordagem do Real Ice envolve o uso de bombas submersíveis para levar a água do mar até a superfície do gelo. À medida que a água congela, ela forma novas camadas de gelo, engordando o manto de gelo existente. Esse processo também remove a neve que isola o gelo, permitindo que ele cresça ainda mais. Os testes realizados no Alasca no ano anterior e foram estendidos para Cambridge Bay no início de 2024, com os resultados iniciais mostrando um ganho significativo na espessura do gelo.
Com um custo estimado de US$ 5 bilhões a US$ 6 bilhões por ano para engordar o gelo em uma área de 1,5 milhão de quilômetros quadrados, o projeto enfrenta desafios financeiros e logísticos. A empresa também está explorando a possibilidade de envolver governos ou fundos globais, além de considerar a venda de “créditos de refrigeração”, onde os poluidores pagariam para congelar o gelo e compensar suas emissões de carbono.
Apesar das promessas, o projeto recebeu críticas significativas de especialistas. Os cientistas questionam as possibilidades de escalar a solução e a possibilidade de impactos ambientais imprevistos. Jennifer Francis, do Woodwell Climate Research Center, embora reconheça o aumento local da espessura do gelo, tem dúvidas sobre o impacto duradouro no combate à crise climática global. Além disso, a presença humana em áreas tão vulneráveis pode gerar consequências imprevistas, alertam especialistas.
Enquanto o projeto continua seus testes, o futuro do Real Ice depende da capacidade de provar que essa tecnologia pode ter um impacto positivo a longo prazo sem causar danos ecológicos substanciais. A esperança é que, mesmo que os efeitos sejam locais, possam ter um impacto global na redução da velocidade do derretimento do gelo do Ártico.